Gabriel Silva

Carta aos encarcerados de Sena

In Documentos, Orações on 16/01/2007 at 22:26

por Santa Catarina de Sena
Tradução de Frei João Alves Basílio, OP

1. Saudação e objectivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da bondosa Maria, caríssimos filhos do bondoso Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-vos purificados pelo desejo santo, no sangue de Cristo crucificado.

2. Jesus, nosso redentor

Colocai o sangue de Cristo crucificado no vosso pensamento, como ponto de meditação. Se o fizerdes, atingireis uma perfeita paciência. De fato, o sangue de Cristo simboliza nossos pecados e a infinita misericórdia, o infinito amor de Deus. Tal simbolismo nos leva a repudiar nossos pecados e defeitos, bem como a amar as virtudes.

Filhos caríssimos! Se me perguntardes por que o sangue (de Jesus) nos faz conhecer nossos pecados e a misericórdia divina, respondo: porque o Filho de Deus foi morto por causa dos nossos pecados. O pecado foi a causa da morte de Jesus. Para entrar na glória (do céu) Ele não precisava da cruz; nele não existia o veneno do mal e a vida eterna lhe pertencia. Nós, porém, ao perdermos a vida eterna por causa do pecado (de Adão), começamos uma grande guerra contra Deus. Ao revoltar-se contra o Senhor, o homem ficou debilitado e, vivendo no pecado, não possuía remédio para tomar. Foi preciso que Deus Pai nos desse o seu Filho unigênito, o Verbo. Num ato de amor inapreciável, uniu a natureza divina com a humana, o Infinito com nossa carne pecadora e limitada. Cristo veio como médico-enfermo, como médico-defensor nosso. Vou repetir: com o seu sangue Jesus curou nossas maldades, deu-nos seu Corpo em alimento e seu Sangue como bebida. Um sangue doce e suave, doce e forte, remédio para toda doença. Da morte (de Cristo) veio-nos a vida. Cristo afastou as trevas e nos iluminou.

3. Jesus, o médico-enfermo

Os males que o pecado mortal nos trouxe são estes: retira de nós a Graça (santificante), tira de nós a vida espiritual, ofusca a inteligência, torna-nos servos e escravos do demônio, torna-nos inseguros pelo desordenado temor. O pecado é sempre insegurança. A pessoa dominada pelo pecado não possui o domínio de si. Ai de mim! como são numerosos esses males! Somente por causa do pecado, quanto sofrimento, quantas angústias e fadigas suportamos com a permissão de Deus! Pois bem, todos esses males são cancelados pelo sangue de Cristo crucificado. Na confissão (sacramental) a alma se lava de todos eles no sangue de Cristo. O sangue nos dá paciência, ao considerarmos nossos defeitos contrários a Deus e o remédio que Cristo nos trouxe.

Sim, Jesus é o médico que fez do seu sangue a nossa medicina. Um médico enfermo, porque assumiu nossas doenças, nossa mortalidade, num corpo mortal, no qual puniu nossos pecados. Cristo comportou-se como a ama-de-leite que amamenta uma criança: se esta adoece, a ama toma o remédio em seu lugar, porque a criança, pequena e fraca, somente se alimenta de leite e não pode beber o remédio amargo.

Oh Jesus, amor dulcíssimo, és tu a ama-de-leite que bebeu o remédio amargo, suportando dores, humilhações, irrisões e covardia! Manietado, flagelado à coluna, cravado na cruz, saturado de desprezos, ofensas; aflito, consumido de sede sem nenhum refrigério. Apenas deram a Jesus vinagre misturado com fel entre muitos insultos. E Ele tudo suportou, orando pelos que o crucificavam.

Oh inestimável amor! Não somente rogavas pelos teus algozes, mas os inocentavas, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,3d ). Oh paciência que superas toda paciência! Que pessoa jamais, espancada, batida, caçoada e morta, perdoou e orou pelos seus ofensores? Somente tu, meu Senhor! Como é verdade que por nós, crianças fracas e enfermiças, bebeste o remédio amargo! Pela tua morte deste-nos a vida; pela tua tristeza deste-nos a alegria! Qual ama-de-leite nos alimentas com a graça divina, sem nenhum amargor.

Foi desse modo que readquirimos a saúde (da alma). Vede como Jesus se fez enfermo por nós.

4. Jesus, nosso defensor

Afirmo ainda que Jesus é o nosso defensor. Veio ao nosso campo de batalha, lutou e venceu o demônio. Diz Santo Agostinho: “Com mãos desarmadas, nosso Cavaleiro, cavalgando o madeiro da cruz, derrotou nossos inimigos”. A coroa de espinhos foi seu capacete; o corpo flagelado foi a couraça; os cravos foram as luvas para as mãos; a lança do peito foi a arma com que eliminou a morte do homem; os cravos dos pés foram as esporas. Vede como estava armado nosso Cavaleiro! Devemos imitá-lo e consolar-nos em nossas dificuldades e aflições.

Eis por que eu dizia antes que o sangue de Cristo faz-nos conhecer os próprios pecados e nos indica o remédio para eles, ou seja, a grande misericórdia divina, a nós concedida pelo seu sangue. Não há outro modo de participar da graça de Deus e de atingir a finalidade para a qual fomos criados. E, sem isso, vós nem poderíeis suportar com paciência os vossos sofrimentos. Mas pela recordação do sangue de Jesus, todo acontecimento amargo torna-se suave e todo peso, leve (Mt 11,30).

5. Conclusão

Nada mais acrescento, porque disponho de pouco tempo. Permanecei no santo e terno amor a Deus. Recordo-vos que um dia tereis de morrer, e não sabeis quando. Preparai-vos para a confissão e a santa comunhão, se puderdes, a fim de ressuscitar na graça com Cristo Jesus. Jesus doce, Jesus amor!

Fonte: Santa Catarina de Sena. As cartas. Tradução de Frei João Alves Basílio, OP. São Paulo: Paulus, 1998.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: