Gabriel Silva

CONVENTO NOSSA SENHORA DOS MÁRTIRES DE ELVAS

In História on 08/12/2008 at 16:02

 

Palestra proferida por Fr. José Carlos Almeida, durante o Passeio da Família Domicana a Elvas, Maio de 2008.

 

 A invocação de Nossa Senhora dos Mártires para esta fundação conventual da Província Portuguesa da Ordem de São Domingos não podia ser a mais adequada.

   Se esta invocação e título, como nos conta a história, se deve ao facto de o convento e igreja terem sido fundados em 1267 no local onde já antes estava a ermida com a mesma invocação, ermida erguida para dar sepultura aos soldados tombados na conquista da cidade aos árabes em 1166 por D. Afonso Henriques, ou na reconquista de D. Sancho II de 1230, é inegável que ela se aplica perfeitamente ao que foi a vida deste cenóbio dominicano ao longo da sua história.

   Situado na praça militar mais importante da fronteira com Espanha, num primeiro momento fora do recinto amuralhado e depois dentro dele, o convento de Nossa Senhora dos Mártires não foi imune aos acontecimentos militares de que esta praça de armas foi teatro.

   Em 1336, Afonso IX, rei de Castela e sogro do rei português Afonso IV montou cerco a Elvas e durante algum tempo perturbou a normal vida da cidade. Não conseguindo conquistá-la retirou-se, permitindo que quatro anos mais tarde, em 1340, se reunissem aqui as tropas portuguesas que participariam na batalha do Salado contra os árabes.

   Em 1381 Elvas está de novo cercada por um rei de Castela, desta feita por D. João, que mantém uma disputa com o rei português D. Fernando. A crise de 1383-1385 vai também fazer sentir-se em Elvas, que uma vez mais volta a sofrer ataques e cercos.

   Depois de um longo período de mais ou menos duzentos e cinquenta anos de tranquilidade, em 1641, Elvas volta a estar cercada por tropas espanholas. Desta feita é o General espanhol Monterey que mantém a cidade cercada. Pouco depois, em 1644, é o General Torrecusa que cerca a cidade com quinze mil homens. Este período turbulento das guerras da independência termina em 1659 com a célebre batalha das linhas de Elvas, a qual põe fim a um cerco à cidade que durava já desde os finais de Agosto de 1658.

   Passados quase cinquenta anos, em 1706, aquando das guerras da sucessão espanhola, Elvas voltava a estar sob fogo e cercada. Comandava os exércitos espanhóis o Marquês de Bay. Em 1711 temos um novo cerco de três dias, que terminou devido à inexpugnável praça militar, factor que teve também peso na retirada dos exércitos espanhóis aquando da “guerra das laranjas” de 1801.

   Estes vários acontecimentos militares tiveram impacto na vida da comunidade do convento de Nossa Senhora dos Mártires, interferiram com o seu ritmo litúrgico, com o número de habitantes da comunidade, com a própria qualidade de vida, na medida em que cada cerco, mais ou menos prolongado, interferia nos rendimentos do convento. Não podemos esquecer que a comunidade vivia em grande parte das rendas e das produções das suas propriedades, como das Quintas da Amoreira e de Água de Banhos, e das Herdades das Barrancas e da Correteria, entre outras, e quando havia guerras não havia produção ou rendimento suficiente.

   Estes acontecimentos interferiram certamente até com a própria estrutura do convento, embora não saibamos se em algum cerco o convento ou a igreja foi atingida por algum tiro. O que sabemos, isso sim, é que a sua localização obrigou a interferências com a estrutura, como foi aquando da construção da linha de muralhas, idealizada pelo Tenente General Rui Correia Lucas, em 1643. Por causa de tal o convento perdeu uma parte do seu edifício que estava destinado a hospício. Em 1729, Março, e ainda que não por um acontecimento militar, mas também por razões militares, a comunidade teve que ceder ao General D. João Diogo de Ataíde terreno no adro da igreja e do convento para que este pudesse construir ali umas cocheiras conforme lhe tinha sido mandado pelo rei[1]. A vida do convento não foi assim estranha nem imune à vida da cidade, à vida da praça militar.

   Cumprem-se agora, duzentos anos sobre um acontecimento que envolveu a praça militar de Elvas, a cidade, e inevitavelmente o convento dos dominicanos de Nossa Senhora dos Mártires, esse acontecimento é a invasão francesa do General Junot.

   Este General francês não escolheu a via mais a sul para penetrar no país. Entrando por Alcântara a 19 de Novembro de 1807 rapidamente chegou a Abrantes e dali a Lisboa, como era seu objectivo, e missão destinada por Napoleão, não passando por isso por Elvas.

   Por aqui passaram e ficaram as tropas espanholas, que conjuntamente com as tropas francesas entraram em Portugal. Eram três divisões, comandadas uma pelo General Carafa, que distribuiu as suas tropas pelas cidades de Lisboa e Porto, prestando assim um auxílio muito próximo às tropas de Junot nas duas cidades mais populosas do país, outra comandada pelo General Taranco que se fixou no Porto, controlando desde aí o norte do país, Minho e Trás-os-Montes, e uma terceira divisão que se dirigiu para Setúbal ocupando na sua passagem as praças de Elvas, Campo Maior e Estremoz. Esta terceira divisão era comandada pelo General D. Francisco Solano.

   Militar experiente, o General Solano ao entrar e ocupar a praça de Elvas não removeu os portugueses que estavam ao comando das forças. Pelo contrário, permitiu que o General português António José de Miranda Henriques continuasse à frente da guarnição da praça militar, ainda que subordinado ao seu governo e autoridade[2].

   Os franceses não eram no entanto da mesma opinião, nem política, não confiavam os postos importantes aos portugueses, e por isso aos primeiros sinais de descontentamento e sublevação vão posicionar-se no terreno de outra forma, assegurando pessoalmente o comando quer das tropas quer das praças militares. É assim que a 11 de Março de 1808 as tropas francesas, sob o governo do General Kellermann, responsável pelas Províncias da Estremadura e Alentejao, chegam a Elvas, ocupando imediatamente a praça de Elvas e os fortes de Santa Luzia e Nossa Senhora da Graça.

   É também neste sentido que as forças militares portuguesas são desmobilizadas e os seus superiores destituídos. O objectivo é eliminar qualquer força que se possa opor às suas acções e provocar o levantamento do país. Em Elvas o comando das tropas portuguesas e das ordenanças é deixado ao General português António José de Miranda Henriques, mas tal só acontece porque Kellermann sabe que o comando de toda a artilharia da praça e fortes estão entregues ao capitão francês Collet e o comando geral ao Coronel Miquel, homem avarento, violento e que rapidamente ganhou o ódio do povo.

   É também com este objectivo, de impedir qualquer resistência ou levantamento popular, que são dadas ordens para que todas as armas sejam recolhidas ou destruídas. O General francês Kellermann deu ordens nesse sentido às Províncias da Estremadura e Alentejo, que estavam sob a sua autoridade. Contudo, como mais tarde pôde comprovar a ordem foi mal cumprida e por isso aquando das primeiras sublevações vão encontrar-se ainda algumas armas disponíveis para os revoltosos. Elvas é um desses lugares, onde as armas apesar de tudo não desapareceram na sua totalidade, permitindo por isso o armamento dos populares e revoltosos.

   Instaladas as forças invasoras e subjugadas as autoridades locais, os generais franceses puderam dar-se ao luxo de todas as usurpações e violências, como aconteceu a 14 de Março de 1808, quando Kellerman ordenou ao Corregedor de Elvas que lhe enviasse no prazo de 6 horas um deputado com oito mil cruzados. Na mesma ordem o Corregedor foi também informado que todos os meses lhe seria pedida uma quantia de dinheiro, cujo valor seria fixado no momento. O Corregedor ficava responsabilizado por obter essa quantia, a qualquer custo e de qualquer forma. Era a prepotência mais ignominiosa. Recorrendo aos superiores de Kellermann, o Corregedor de Elvas conseguiu que a ordem fosse revogada a 26 de Março.

 

   O mês de Maio de 1808 vai no entanto operar um volte face importante na invasão francesa de Portugal por Junot. Com a traição de Baiona, e a abdicação forçada do rei de Espanha em Napoleão, os espanhóis vão insurgir-se de uma forma geral e violenta contra os franceses. Depois da revolta de 2 de Maio em Madrid são constituídas por todo o país juntas governativas que apelam ao regresso das tropas espanholas a casa, para que aí possam combater os franceses usurpadores.

   É neste contexto que as tropas espanholas estacionadas em Portugal se retiram e entre elas as divisões comandadas pelo General espanhol Solano, das quais algumas sempre estiveram estacionadas em Elvas.

   Esta saída das tropas espanholas abriu um período de três meses bastante convulsivo para Elvas e para a sua população.

   Assim, a 1 de Junho de 1808 Kellermann expede uma ordem na qual exorta os habitantes de Elvas a tomar as medidas necessárias para evitar um saque e a preparar-se para defender a pátria.

   A 4 de Junho de 1808 chega Gransaigne a Elvas com as ordens de Kellermann e poderes para negociar a rendição de Badajoz, que se tinha sublevado. Na cidade de Elvas tomam-se todas a medidas para que os portugueses não sigam os exemplos dos espanhóis.

   A 5 de Junho de 1808 aparece a Carta Pastoral do Provisor da Diocese, na ausência do Bispo, para que os habitantes sejam fiéis e leais aos franceses, apelando à obediência e à paz. Na catedral celebra-se um Te Deum pelos benefícios que o país tinha recebido de Napoleão. Como em outras dioceses e com outros prelados os invasores aproveitam-se da religião e fé do povo para atingir os seus objectivos.

   A 7 de Junho de 1808 é enviada uma nova carta a Badajoz para a rendição. No dia seguinte, 8 de Junho de 1808 o Coronel Miquel recebe ordens para aprontar a praça para a defesa e as tropas para o ataque. Os espanhóis são proibidos de entrar em Elvas. Entretanto os exércitos espanhóis que se encontravam em Badajoz transferem o seu acampamento para junto do forte de São Cristóvão e mantém os franceses em tensão.

Em Badajoz estão ainda alguns milhares de espanhóis prontos a obedecer às ordens do General José Galluzo, bem como uma legião de voluntários, comandados por Moretti e composta quase na totalidade por portugueses, tropas desertoras que se refugiaram em Badajoz.

 

   Nos inícios de Julho e face ao reduzido número de tropas francesas, o Coronel Miquel faz entrar no forte da Graça o maior número de armas e destruir todas as demais. Destruiu os armazéns de cordame, panos e ferramentas e toda a pólvora que não pôde armazenar no forte da Graça.

   A 8 de Julho de 1808 faz encravar todas as bocas de grosso calibre, com excepção das dos flancos das portas e as que se destinavam a ser conduzidos ao forte. Miquel prepara para si também um quarto no forte por medo de ataques, que de facto acabam por suceder. Foi na noite de 9 para 10, quando regressava ao forte da Graça acompanhado de um Engenheiro francês; caíram ambos numa emboscada que os esperava junto à fonte do rio de Melo. Os executores do atentado tinham vindo de Campo Maior e entre eles estavam alguns soldados de Elvas entretanto desertados.

Na escuridão da noite conseguiram matar os cavalos e ferir Miquel que ficou toda a noite sem socorro pois os franceses do forte não se arriscaram a sair no escuro da noite. Miquel veio a morrer deste ferimento em Lisboa, mais tarde.

Face à impossibilidade do Coronel Miquel governar as tropas, o comando passou para as mãos de Collet, que com o capitão Miquel comandante do Forte da Graça, e filho do Coronel, provocaram o maior estado de terror, pois o filho Miquel ameaçava fuzilar tudo e todos se o pai morresse e Collet apoiava-o nesse propósito. Nestas ameaças estavam especialmente implicados os médicos que assistiam o doente. Vivia-se este pavor e terror quando Loison chegou Elvas a 3 de Agosto, vindo de Évora onde tinha praticado uma chacina que tinha toda a gente temerosa.

   As tropas que acompanhavam Loison estacionaram no Rossio do Calvário, entre a horta do Paraíso e a Igreja de Nossa Senhora da Boa Fé. Loison trazia consigo de Évora os seguintes prisioneiros: o Tenente Coronel Domingos Franco, D. António Maria Gallego, 12 guardas suíços, e alguns espanhóis. Dois guardas suíços foram fusilados em Elvas, enquanto que o Tenente Coronel Franco escapou à mesma sorte por pouco e graças à intervenção do Bispo. O comandante espanhol Gallego ficou preso, fugindo mais tarde graças à ajuda de outros espanhóis que o resgataram e fizeram descer para o fosso por uma corda atada a um canhão.

   Na noite de 4 para 5 Loison abandona Elvas e dirige-se para Campo Maior, pois era a praça militar que estava fora do seu controlo. Ao sair de Elvas, para não mais voltar, deixa no governo da praça militar o General Girod Novilar.

    A 30 de Agosto de 1808 celebra-se a Convenção de Sintra ou seja a rendição dos franceses e o fim da primeira invasão, ou principio do fim, porque Elvas ainda vai assistir a um mês de acontecimentos.

   A 5 de Setembro de 1808 o General espanhol Galuzo intima Novilar a evacuar a praça.

   Novilar não obedece e por isso a 8 de Setembro de 1808 Galuzo põe cerco à cidade e aos fortes, posicionando as tropas pelas alturas da Atalaia. A 9 de Setembro de 1808 D. António de Arce assenta o seu quartel no sitio de Alcobaça, a um tiro de canhão do forte da Graça.

   Apesar da situação Novilar tem ainda coragem, ou desplante para no dia 10 de Setembro de 1808 escrever ao bispo a exigir 4 bois para o forte de Graça, 2 bois para o forte de Santa Luzia, 4 mil arráteis de palha. Tudo isto para alimentar os 1300 homens que estavam nos fortes. Neste mesmo dia Novilar escreve ainda ao Juiz de Fora a pedir que cuide dos doentes que estão no hospital da cidade e 30 mil francos em metal e mais alimentação.

   No dia seguinte, 11 de Setembro de 1808 o Bispo encontra-se com o provedor da Comarca e o Juiz de Fora para encontrarem uma solução. A mais viável é a de procurar o General Galuzo para que ponha fim ao cerco. O General não se compromete e a 12 de Setembro de 1808 ataca os fortes. Durante a noite os franceses que ainda se encontravam na praça cidade recolhem aos fortes

    Face ao desaparecimento dos franceses da cidade no dia 13 de Setembro proclamam-se vivas ao Rei D. João VI e estabelece-se uma Junta Governativa presidida pelo bispo.

A junta acorda uma neutralidade não permitindo que nem franceses nem espanhóis entrem na cidade.

   A 15 de Setembro de 1808 chegam as primeiras tropas inglesas que passam o ocupar a cidade a controlar os acontecimentos como os de 22 de Setembro, quando a presença de alguns franceses na cidade, para visitarem os seus dentes, gera quase um linchamento popular.

   A 1 de Outubro de 1808 as tropas francesas abandonam os fortes e partem a caminho de Lisboa escoltadas por duzentos ingleses. 

 

   Estando inseridos na cidade, na sua estrutura física, social e económica, os dominicanos não foram alheios nem isentos de consequências destes acontecimentos. Interessa assim conhecer um pouco do que foi a vida dos frades dominicanos em Elvas durante este período.

 

   No Livro de Actas do Conselho do convento de Nossa Senhora dos Mártires de Elvas encontramos para este período histórico das invasões francesas uma grande lacuna. Face a este facto colocam-se duas hipóteses: ou as circunstâncias locais e comunitárias não permitiram a realização de Conselhos, ou o Prior, frei Luís Lovino, assumiu desde o primeiro momento a responsabilidade de todas as decisões tomadas. Não seria algo novo, nem estranho, pois já no segundo quartel do século XVIII, durante os governos dos Priores frei Constantino Moreira e frei João de Mesquita se não tinham convocado Conselhos, como diz o notário do Conselho no Livro de Actas[3].

   Em 1807, e nos meses anteriores à invasão de Junot, o Conselho do convento reúne-se apenas três vezes, a 20 de Julho, a 26 de Agosto e a 14 de Setembro. Pela questão apresentada, o Conselho do mês de Agosto é verdadeiramente interessante pois o Prior propõe aos padres membros do Conselho um donativo de quarenta mil reis para o resgate de um religioso cativo em Argel.

   Não sabemos se o religioso é dominicano, não é dito, o que ficamos a saber é que a comunidade vive neste período um certo desafogo económico, pois pode contribuir para esta causa.

   Durante os anos de 1808, 1809 e 1810 o Conselho do convento não se reúne, ou pelo menos não são redigidas Actas da sua reunião. No entanto, isto não quer dizer que o convento, a comunidade não tivesse vida, e sobretudo não estivesse a sofrer as consequências da realidade politica e militar que a rodeava.

   A entrada, primeiro, das tropas espanholas e depois francesas na cidade provocaram certamente alguma agitação na comunidade. Acrescente-se a isto todo o conjunto de ordens e decretos que o governo de Junot foi dando em Lisboa e que os seus generais e comandantes locais procuravam levar a bom termo.

   Uma das ordens dadas por Junot no mês de Fevereiro de 1808 é que todas as pratas e ouros deviam ser recolhidos à casa da moeda para fazer face à contribuição de quarenta milhões de cruzados que Napoleão tinha decretado como compensação para os custos da guerra. Sabemos pelo Livro de Registos do Provincial que foi enviada a todos os priores e prioresa uma carta com a dita ordem para que lhe fosse dado cumprimento.

   Não se encontrando qualquer referência no Livro de Actas do Conselho podemos interrogar-nos como reagiu a comunidade a esta ordem primeiro dos governantes civis e depois do seu legitimo superior. Sabemos pelo mesmo Livro de Actas que em 1801, aquando da “guerra das laranjas”, D. João VI ordenou que as pratas dos conventos da cidade fossem inventariadas e remetidas para Tomar ou para Coimbra para que não caíssem nas mãos dos invasores. O notário do Conselho transcreveu a ordem, embora também não nos diga que cumprimento foi dado à mesma.

   Pelo mesmo Livro de Actas e uns anos passados, em Novembro de 1813, sabemos que a comunidade possui um faqueiro de prata para doze pessoas que decide vender para fazer face a uns pagamentos inadiáveis e inevitáveis.

   O que se terá passado? Teria a comunidade entregado a sua prata? Teria escondido alguma da prata que possuía? Ou o faqueiro de prata que aparece para ser vendido em 1813 ainda não estava na posse dos frades nesta data?

  Convém recordar que quando Loison entrou em Elvas, nos primeiros dias de Agosto de 1808, uma das averiguações que fez se prende com a prata das igrejas e conventos. E sabendo que ela ainda estava em Elvas, que ainda não tinha sido enviada para Lisboa como ordenado, e que estava depositada sob as ordens do Juiz de Fora, manda chamar o Juiz para que a prata lhe seja entregue.

   O Juiz de Fora parece que foi um homem arguto e desculpou-se com Kellermann, que este já a tinha levado, embora como se veio a saber a prata que Kellermann levou não era a das igrejas de Elvas, mas a das igrejas de Vila Viçosa. Podemos assumir assim que a prata de Elvas não deixou a cidade e a dos dominicanos tão pouco.

   Mas a ordem da entrega das pratas não foi a única que chegou à cidade e aos dominicanos. Se a 14 de Março de 1808, Kellermann exige a entrega por parte da cidade de um pagamento de 8 mil cruzados, num prazo de seis horas, certamente que a comunidade e convento não ficaram imunes à preocupação de conseguir em tão pequeno prazo a quantia solicitada. Não sabemos se e com quanto os frades de São Domingos contribuíram, agora o que podemos dar como certo, é que como membros da comunidade e membros eminentes foram certamente abordados nesta questão e na sua resolução.

   É também nesta qualidade, que vemos a comunidade, ou pelo menos os seus representantes a participarem no Te Deum que a 5 de Junho foi celebrado na catedral de Elvas por ordem dos franceses. Tendo o Provisor do bispo emitido nesse mesmo dia uma carta pastoral na qual louva as acções de Napoleão e apela à paz e à obediência, é de todo normal que os frades de São Domingos, ou pelo menos aqueles que estavam obrigados por inerência de cargo, estivessem presentes na dita celebração religiosa.

   Também durante este mesmo mês de Junho a cidade de Elvas está cercada, as tropas espanholas estão postadas junto ao forte de São Cristóvão. Na cidade e por ordem de Kellermann fazem-se todos os preparativos para a guerra e os espanhóis são proibidos de entrar na cidade, não vão eles desencaminhar os portugueses.

    Neste sentido e face a outras realidades vividas no resto do país podemos imaginar a pressão que as tropas francesas, e mais precisamente os seus comandantes, exerceram sobre os religiosos e clérigos para que desde o púlpito convencessem os fiéis a ser colaborantes na defesa da cidade e no ataque aos espanhóis que desde Badajoz incitavam à libertação do jugo francês.

   O incidente da noite de 9 para 10 de Julho com o Coronel Miquel vai ter repercussões na vida da comunidade do convento de Nossa Senhora dos Mártires, ainda que os frades nada tenham a ver com o sucedido nessa mesma noite. Depois de recolhido do atentado de que foi alvo e depois de tratado, o Coronel Miquel fica a convalescer no convento dos frades de São Domingos. Sendo o comandante geral das forças francesas instaladas na cidade e nos fortes, e sendo odiado pela população em geral, podemos imaginar o que foi a vida do convento durante a sua estadia ali, mais precisamente até ao dia 29 de Setembro, quando os últimos doentes franceses na cidade foram conduzidos ao forte da Graças para no dia 1 de Outubro abandonarem a cidade a caminho de Lisboa.

  Se por um lado estavam os subalternos que deveriam receber ordens, conselhos, pelo outro lado estavam os populares que desejavam vê-lo morto e deviam esperar qualquer notícia. O convento não deveria ter tido paz nenhuma durante este tempo.

   Acresce ainda a esta tensão, a ameaça do filho do Coronel, o Capitão Miquel, comandante do forte da Graça. Se o seu pai morresse em Elvas ele fuzilaria toda a população, a começar pelos médicos que 24 sobre 24 horas vigiavam o estado de saúde do Coronel Miquel. O perigo para os frades neste caso era redobrado, pois como donos da casa se alguma coisa corresse mal eles seriam também responsáveis.

   O perigo de invasão do convento pelos populares, para porem termo à vida do Coronel, veio a verificar-se no dia 23 de Setembro. Os tumultos gerados pela vinda à cidade de 4 ou 5 soldados franceses, com um missão bastante humanitária, ver os feridos que tinham ficado na cidade, deu origem a que as portas do convento fossem forçadas, valendo nesse momento a tropa inglesa que já estava na cidade e impediu tal acto.

   Se a cidade de Elvas durante três dias e três noites festejou a libertação do jugo francês com luminárias e repiques de sinos, podemos assumir que os frades de São Domingos não ficaram atrás nesses festejos. Aliás no dia 30 de Setembro podemos vê-los, assim como todas as demais autoridades civis e religiosas no Te Deum celebrado na Sé em acção de graças pela libertação e nos cumprimentos que depois se lhe seguiram, às tropas inglesas e ao seu comandante Coronel Ross.        

   Meses mais tarde, em 29, 30 de Novembro e 1 de Dezembro de 1808 estarão presentes também na acção congratulatória promovida pelo bispo, D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, exercendo o seu ministério de pregador o padre frei Francisco de São Vicente Ferrer, pregador da real capela de Vila Viçosa.

   Com a retirada das tropas francesas para Lisboa, Elvas passou a viver mais tranquilamente, ainda que por ali passassem a caminho de Espanha algumas das tropas inglesas que desembarcavam em Portugal. As invasões de Soult e de Massena não provocaram grandes transtornos pois tanto uma como outra entrando mais a norte não atingiram esta praça forte situada mais a sul da fronteira

   Para a comunidade dos frades de São Domingos foi um retomar do ritmo normal, embora sofrendo as sequelas do vivido directamente durante o ano de 1808 e indirectamente nos anos seguintes de 1809, 1810 e 1811, ano em que novamente se volta a reunir o Conselho dos padres da comunidade.

   Eis o que diz a Acta, única nesse ano, mas bastante reveladora:

No último de Julho de mil oitocentos e onze, atendendo seriamente ao estado não só de escassez em que actualmente se acha este convento, mas ainda mesmo à prestação das rendas de trigo, quase total, cuja faria a principal subsistência do mesmo convento, e atendendo igualmente à contribuição que está eminente e que segundo as actuais circunstâncias é de todo honorosa, assim como a solução da grande divida da prolongada causa dos dízimos, e suas custas, causa empreendida pelos antepassados e decidida a favor dos Cónegos, nestes calamitosos tempos em que o mesmo convento não pode satisfazer sem alienar dos seus fundos, à vista de tão urgente motivo foi de necessidade juntarem-se os Padres do Concelho deste mesmo convento e conferenciando nos meios económicos de cortar despesas em atenção a ser demais alguma duração a sua parca subsistência, assentaram todos unanimemente nas seguintes providências:

Abolir de todo os partidos da lavadeira e barbeiro, e para que desta regalia não fiquem privados os Padres Conventuais dar-se-á a cada um dos Padres, quando se lhe pagarem as suas vestiarias mais a quantia de quatro mil e oitocentos reis, para suprir aquelas duas tão urgentes necessidades, ficando por este modo satisfeitos os Padres, e o todo utilizado de duas partes mais do que se aplica aos mesmos Padres.

Diminuir o partido de Letrado e Organista, a este dando-se só vinte alqueires de trigo e àquele quarenta, no que se poupam quarenta alqueires de trigo.

Diminuir o partido de um dos Médicos, ficando só um para curativo de Padres e Criados, no que se poupam trinta alqueires de trigo.

Diminuir no salário do Aremel, dando-lhe só dois pães por dia e em dia de trabalhos com o carro, em trabalhos mais custosos, se parecer ao Padre Sindico dar-lhe três, no que se poupam dezoito alqueires de farinha.

Aplicarem-se para a comunidade todos os lucros da Botica, ainda os da Água de Inglaterra, de que abusaram os boticários e indevidamente usurparam para si, determinando-se no Concelho que o Boticário apresente, e futuros apresentem, ao assinar de contas em cada mês, não só os originais de despesa em drogas e ervas, mas um extracto particular das mesmas despesas, para ficar nas mãos do Padre Sindico depois de assinado pelos Padres Depositários, concorrendo a comunidade para do que da mesma botica receber, fazer a despesa de açúcar e o mais que por junto se pode comprar, para consumo dos remédios, ficando só ao Boticário a liberdade de pagar as drogas e ervas depois de apresentar os tais originais. É quanto se deliberou neste Concelho que por ordem do Padre Superior e Vigário in capite frei Vicente de São Tomás lancei neste livro dos Concelhos a que me reporto e assino, para que em todo o tempo tenha exacta execução. E quando os tempos melhorarem decidirão novamente os Padres do Concelho o que melhor convier.

Convento de São Domingos de Elvas, aos 2 de Agosto de 1811.

Frei Manuel Joaquim de Santa Rosa Barradas

Notário

   As consequências dos anos de guerra foram imensamente gravosas para o convento, encontrando-se este numa situação financeira muito má. Por isso em 1813 na reunião de 2 de Setembro e na reunião de 22 de Novembro, as únicas de que há registo, o Conselho decide destratar dinheiro que tinha a juros junto do Capitão Manuel Pinheiro. Uma primeira vez no valor de oitocentos mil reis e uma segunda e última vez no valor de quatrocentos mil reis. É também nesta data de Novembro que se decide a venda do faqueiro de prata.

   Estas diligências não foram no entanto suficientes e por isso em 1815, em Outubro a comunidade vê-se na necessidade de alienar património, nomeadamente duas herdades e duas quintas. Para tal tiveram que obter licença do Provincial, que como consta no seu Livro de Registos anuiu à decisão da comunidade.

   É neste Livro de Registos do Provincial que encontramos outras informações relativas à comunidade durante este período. São informações de assignações ao convento ou de frades do convento a outras comunidades. Por elas podemos ter uma ideia da composição da comunidade durante estes anos e da movimentação dos frades.

   Assim em 1807 são assignados dois novos padres ao convento, o frei Diogo de São Tomás Ferreira e o frei Manuel de Almeida Coelho, que estará pouco mais de um ano pois em Novembro de 1808 sai para o convento de Évora. Voltará no entanto em Dezembro de 1811. Ainda em 1807 e para o convento de Montemor sai o padre frei Policarpo de Nossa Senhora dos Prazeres.

   Em 1808 é assignado, vindo da Batalha o padre frei António da Incarnação e em 1809 o padre frei António Cabral. No ano de 1810, em Abril, é confirmado como Prior frei Francisco de São Vicente Ferrer, que não se manterá no cargo mais que um ano, pelo que em 1811 é o frei Manuel de Santa Inês da Gama que é confirmado como Prior.

   Ainda em 1809 a comunidade é reforçada com um noviço Júlio do Carmo Furtado. Entra para o lugar de boticário. No inventário realizado ao momento da exclaustração em 1834 vamos encontrá-lo ainda aqui, com o mesmo oficio e com quarenta anos. Sendo natural de Elvas certamente terminou aqui os seus dias.

   Em 1810 sai deste convento de Elvas para o de Abrantes o padre frei Agostinho da Purificação. Mas a sua saída não é uma assignação a outro convento, ele sai como Vigário do convento e mosteiro dominicanos daquela cidade. Por esta razão o Provincial ordena que lhe seja guardada conventualidade e cela em Elvas, porque afinal essa é a sua casa e continuará a ser.

   Nos anos de 1811 e 1812 não há mudanças no convento de Elvas, com excepção de frei Manuel de Almeida Coelho que regressa de Évora no final do ano de 1811. Em 1813 apenas chega a esta comunidade vindo de Azeitão, e à qual regressa em 1815, o padre frei Nicolau de Almeida e Silva. Neste mesmo ano de 1815 é assignado vindo de Setúbal o padre frei António Marinho. Em Dezembro de 1814 é confirmado no novo Prior eleito frei Vicente de São Tomás.

   Tendo Elvas para além de um convento também um mosteiro encontramos no Livro de Registos do Provincial as nomeações dos confessores das monjas do mosteiro de Nossa Senhora da Consolação. Assim em 1808 é o padre frei Vicente de São Tomás que é nomeado confessor, em 1810 o padre frei Miguel de Santa Helena, em 1811 o padre frei Manuel Joaquim de Santa Rosa Barradas, cuja nomeação é renovada em 1814.

   É também o padre frei Manuel Joaquim de Santa Rosa Barradas que a 14 de Junho de 1811 é nomeado Director da Ordem Terceira de Elvas.

 

   Como dizia ao iniciar a invocação de Nossa Senhora dos Mártires aplica-se perfeitamente a este convento dominicano e muito mais perfeitamente ao período que corresponde à invasão do General francês Junot. Os frades que viveram esses momentos aqui em Elvas certamente não perderam a vida, como aconteceu em outros conventos dominicanos, mas podemos dizer que foram martirizados com a perda da qualidade de vida e com tanta coisa que certamente tiveram que suportar e que nós desconhecemos porque lhes ficou na pele e não nos papeis que chegaram até nós.

 

 


[1] Cf. ANTT – Convento Nossa Senhora dos Mártires de Elvas – Livro 1, Livro dos Concelhos, fólio 21.

[2] Cf. NEVES, José Acúrsio das – Vol. III, 124.

[3] Cf. ANTT – Convento Nossa Senhora dos Mártires de Elvas – Livro 1, Livro dos Concelhos, fólio 21. 

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  1. Sou da família elvas e gostaria de saber como obter dupla nacionalidade em homenagem áos meus antepassados – Os ELVAS.

    Maria Geruza Correia Elvas

  2. Sou da Legião de Maria. Estou procurando vida e obra de Alfonso Lambe, que foi servo de Deus e um dos grandes propadores da Legião de Maria em vários países da América do Sul. É que eu vou fazer Alocução à respeito desse tema, na próxima reunião da Cúria da Região de Brasilância. Vocês podem me ajudar.

    Mauro Mansini.

  3. 13/01/2012
    Sou da comunidade Nossa Senhora dos Mártires, em São Luis do Maranhão no Brasil.Estou procurando mais informações para nossa comunidade a inauguração de nossa Capela. Vocês podem me ajudar informando-me :
    – Qual o dia da comemoração de N. Sra dos Mártires?
    – Enviar uma foto da imagem
    – A origem deste Título de Nossa Senhora.
    Essa informações serão usadas na Inauguração de nossa Capela.
    atenciosamente
    aguardo resposta para o e-mail:macons.s@hotmail.com
    Deus abençoe o trabalho de todos vocês.
    agradecida
    Conceição Sousa

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