Gabriel Silva

Carta do Mestre Geral: “Vai dizer aos meus irmãos!”: As dominicanas e a evangelização

In Documentos, Mestre Geral on 09/02/2012 at 10:47

Vai dizer aos meus irmãos!” (Jo 20,15): As dominicanas e a evangelização

Esta chamada de Cristo a Maria, na madrugada da Ressurreição, é a escolhida como tema deste quarto ano da novena que nos prepara para a celebração do Jubileu da Ordem. Com o título “as dominicanas e a evangelização”, convida-nos, este ano, portanto, a pôr o anúncio da ressurreição na mesma fonte da missão da nossa Ordem.

 

Esta frase tão simples de Cristo despertou em mim o sentimento da emoção ao recordar o que senti, há alguns anos, na igreja duma pequena localidade no Iraque. O amanhecer apenas tinha despontado e preparávamo- nos para celebrar a admissão ao noviciado e à profissão de alguns jovens irmãos. Esperando aquele momento, já se encontravam na igreja um grupo numeroso de mulheres, e entre elas mães, irmãs, amigas, irmãs apostólicas e leigas dominicanas. Todas juntas, enchiam a igreja com o denso silêncio da sua oração, enquanto lá fora, perto de nós, todo o país sofria o caos, a violência e as ameaças. No silêncio, na presença do Pai, estas mulheres oravam com uma intensidade tal que, no coração do caos que devastava o país e o destruía com todo o tipo de divisões, elas eram portadoras da certeza de que nada pode calar a mensagem da vida. Um dia, neste mundo, despontou uma aurora pelo nascimento, no país de Judeia, dum Menino, Príncipe da Paz. A sua vinda tirou para sempre as trevas, apesar das aparências, e a noite foi definitivamente destruída quando, desde o mais fundo da morte infligida, Ele entregou a sua vida. Frequentemente nestes lugares do mundo onde a violência pretende destruir todos os laços sociais, as mulheres, as mães, estão ali como guardiãs da vida para dar testemunho de que apesar das aparências, ninguém pode pretender tornar-se dono de uma vida, que antes de mais, se recebe para ser dada. Vai dizer aos meus irmãos! Diz-lhes a força da vida, a história inaudita da humanidade que, dia a dia, nasce de novo no Espírito da vida oferecida até à Paixão, para a Ressurreição. Estas mulheres do Iraque manifestavam o horizonte da missão de evangelização: gravar no coração da história humana o gozo e a esperança na vida entregue de Cristo para que o mundo viva, e aprenda a ser as suas testemunhas.

 Na família dominicana, as mulheres – monjas, irmãs apostólicas, leigas dominicanas, membros de Institutos seculares – dão uma contribuição essencial à missão de evangelização da Ordem. Mais que falar de pregação, opto pela definição da nossa missão adoptada na época da fundação da Ordem: totalmente entregues à evangelização da Palavra de Deus. Somos da família dos “pregadores”, homens e mulheres, porque comprometemos a nossa vida nesta aventura da evangelização que, de algum modo, cada um conforme o seu estado de vida e o seu ministério, define “a vida” que desejamos levar antes de assinalar “acções”.

 “Vai dizer aos meus irmãos!” Por meio deste envio, Cristo encarregou a Maria e às outras mulheres a tarefa de convidar à Igreja a nascer para a pregação. Isto evoca em nós a primeira intuição da pregação que será fundadora da Ordem. Nos primeiros tempos desta nova aventura de evangelização dirigida por Domingos são também, de facto, algumas mulheres a uniram-se a ele, e logo alguns leigos, como para dar desde a origem a figura que deve tomar a evangelização: uma espécie de “pequena Igreja”, de comunidade reunida pela força da Palavra escutada, reunidos para escutar juntos a Palavra e levá-la ao mundo. Como na vida de Jesus – tal como escreve Lucas (Lc 8,14) – a comunidade reúne-se ao mesmo tempo que tem a intuição de se transformar numa “comunidade para a evangelização”. Já desde a origem, e por insólito que pudesse parecer naquela época, algumas mulheres formavam parte da comunidade que se reuniu em torno de Jesus. As categorias do mundo não têm espaço quando se trata de ser discípulos. Imaginemos esta comunidade que se constitui seguindo a Jesus no primeiro caminho da evangelização. Reúnem-se para além das debilidades, faltas, pecados, fragilidades que podem ser sanados unicamente por Jesus. E é a causa da sua misericórdia provada de maneiras diversas que estabeleceu a santa pregação. Observando a sua vida e ensinamentos, os discípulos possivelmente tiveram a oportunidade de partilhar as suas experiências no encontro pessoal com Ele. E as mulheres do Evangelho tiveram então a ocasião de testemunhar as palavras que Ele transmitiu: Palavra de anúncio da ressurreição, de reconhecimento da fé e da promessa de salvação, palavra de vida e de perdão, de cura e de confiança. Ele falava-lhes directamente ao coração do seu ser feminino, da sua familiaridade com a vida gerada, da sua capacidade de cuidar e proteger a vida frágil, e também da sua força de confiança na criatividade e resistência da vida. Essas mulheres estarão com Ele nos caminhos da pregação, mas também estarão com Ele no caminho que O leva ao Calvário; elas esperam no jardim da túmulo como também estarão na estrada, correndo, a anunciar aos apóstolos que Ele tinha ressuscitado. A missão de evangelização tem necessidade deste testemunho e deste anúncio para saber como fazer escutar ao mundo uma Palavra que leva em si mesma a vida.

Desde a sua fundação, quando as primeiras “dominicanas”  se juntam  a Domingos e nasce a “santa pregação de Prouilhe” a nossa própria “comunhão para a evangelização” que é a família dominicana, tem necessidade de ser constituída por homens, mulheres, religiosos e leigos, porque ela necessita de ser imagem da primeira comunidade que vai pelos caminhos com Jesus, que aprende d’Ele como amar o mundo e como falar-lhe, como procurar o Pai e como receber tudo d’Ele. Todos juntos, na diversidade e complementaridade, assim como no respeito mútuo das diferenças e da vontade comum duma igualdade entre todos, temos que realizar este “trabalho da fraternidade” de que devemos ser sinal no mundo e na Igreja. Uma fraternidade que sabe que o igual reconhecimento de cada um vê-se amiúde afectado pela mundanidade. Em particular, há muito que fazer ainda para que, em diferentes lugares, a palavra das mulheres tenha o mesmo valor que a palavra dos homens, para que sejam afastadas todas as injustiças e as violências que sofrem, ainda hoje, tantas mulheres no mundo. As dominicanas, na aventura da “santa pregaação” têm certamente a tarefa de lembrar, contra ventos e marés, que o mundo não pode sentir-se “em paz” sem a resolução destas iniquidades. Temos de aprender a ser irmãs e irmãos, a identificar as injustiças, a combatê-las, através do largo e belo trabalho da escuta e da mútua estima. Mas elas têm também que ser sinal de que a evangelização não é só uma questão de ministério e sim um convite a uma certa maneira de viver, inteiramente dedicada a Palavra de Deus para ela seja uma boa nova para o mundo. Na verdade, dedicamos muito tempo a descortinar o que nos distingue na família dominicana. Sejamos antes atentos àquilo que nos congrega e nos une: a graça da Palavra de Deus, a sua verdade e a sua força, a sua vida e a sua misericórdia. As dominicanas e a pregação? É sobretudo o dever que todos temos de partilhar com elas o que recebem e realizam da graça “da evangelização da Palavra de Deus” para que a comunidade se constituía e se consolide numa missão comum.

Porque falar de dominicanas – monjas, irmãs, consagradas e leigas – é sobretudo falar da enorme quota parte que tiveram e têm ainda hoje na tarefa da evangelização, neste gerar a esperança por meio “da evangelização da Palavra de Deus” no mundo. Os locais de oração e de fraternidade, de contemplação e de hospitalidade que são os mosteiros da Ordem são as primeiras pedras da pregação. Nestes locais, os apelos e as necessidades, as penas e as esperanças do mundo inteiro, são recolhidas na oração das irmãs e apresentadas ao Pai. A contemplação dominicana é assim, total e profundamente, uma pregação. É impossível nomear os inumeráveis compromissos, amizades e obras realizadas pelas irmãs apostólicas da Ordem. São sempre presenças e actos que tornam a Palavra em boa nova para os seus contemporâneos. Com a preocupação específica de encontrar forma de traduzir o desejo de que “se acenda o fogo” da graça do Espírito neste mundo. Preocupação expressa ao longo dos séculos pelas suas fundadoras ou fundadores, em contextos em que o lugar e o reconhecimento das mulheres não eram evidentes. No caso das irmãs leigas, nas suas famílias, nos seus grupos de amizade, nos locais da sua profissão, é sempre enorme a criatividade e diversidade que manifestam para fazer ver e escutar a Palavra como uma boa nova donde pode nascer a esperança da ressurreição.

Ao falar das dominicanas e a pregação, não é o meu desejo desenvolver aqui o tema da complementaridade, tão evidente, nem tão pouco o do ministério ordenado da pregação. Como terão já compreendido, a questão não é antes de mais o que se faz, mas sim o que se acrescenta ao bem comum da santa pregação, e como todos juntos poderemos organizarmo-nos para receber o que é oferecido. As dominicanas, creio – mas cabe a elas expressá-lo – trazem à pregação uma experiência específica da sua relação com Cristo, uma maneira particular de estudar a Palavra, um modo preciso de organização da sua fraternidade, uma vulnerabilidade ao que faz nascer e morrer o mundo que lhes é próprio, uma maneira de dizer Deus. Elas trazem também a grande diversidade das interpretações da intuição dominicana tal como os seus fundadores as transmitiram, e de maneira especial uma compreensão fulgurante, num dado momento da história humana, da actualidade da intuição de Domingos neste ou naquele contexto ou meio, para uma específica tarefa ao serviço da humanidade. Vai dizer aos meus irmãos! Isto será talvez o que têm a nos ensinar as nossas irmãs, leigas e religiosas. Isto será também, sem dúvida, o que os irmãos poderiam aprender. Entender juntos o mundo, e muito particularmente neste ano, os irmãos através das irmãs e as irmãs entre si, para além das divergências, deixando abrir o coração da santa pregação de hoje, uma sede da Palavra de Ressurreição. Numa família, os vínculos mais sólidos e mais belos, são os que se fortalecem através da partilha das alegrias e tristezas, pela oferta mútua da amizade partilhadas pelo apoio mútuo, quando a prova do mundo faz-nos duvidar e descobrimos o nosso futuro. Na família não são com frequência, as mulheres que estabelecem os vínculos, elas que são a garantia do vínculo entre os seres, porque elas geram a vida, elas inspiram a confiança necessária para que o conjunto dos membros tenham o desejo de nascer de novo na fraternidade e na filiação? E para nós, na família de Domingos, o desejo de apreender a escutar e a amar o mundo como filhas e filhos do Pai e como irmãs e irmãos da humanidade, e o desejo de ser, neste mundo, como “sacramentos da fraternidade”.

Vai dizer aos meus irmãos!” Parece -me que ao falar das dominicanas na sua relação com a pregação, temos que assinalar a difícil experiência que têm hoje várias congregações de irmãs apostólicas e vários mosteiros da Ordem. Depois de anos de extensão e progresso, não se anuncia um futuro relevante. Devemos transpor esta prova unidos, ajudando-nos mutuamente na sua especificidade e na sua autonomia, também dando testemunho de que a missão da pregação realizada em conjunto é, por um lado, devedora de tudo o que é semeado e, por outro lado, é superior à missão específica duma determinada instituição. Não ignoro que pode ser difícil enfrentar em concreto este desafio de maneira realista e criativa, sem demissão e sem obstinação. Temos que optar por ter verdadeira esperança na vida, mesmo quando nos apercebemos que a morte está por perto, quando há que fechar um grande número de casas e enterrar tantas irmãs queridas. Durante esta transição temos absoluta necessidade de nos mantermos solidários e unidos a fim de preparar o futuro da missão da pregação a partir das forças actuais. Fazendo-o sem sonhar em capacidades que já não existem, nem decidindo o que devem ser no futuro, mas sim recebendo, com simplicidade, a graça das vocações que nos são dadas, ordenando-as à missão comum realizada por todos. Os consagrados e a vida religiosa devem abrir a nossa esperança às dimensões do mundo, e para o mundo, e não vivermos paralisados nem pela lembrança das glórias passadas, nem pelas dificuldades presentes. Ouve-se muitas vezes dizer, em muitos lugares do mundo, que a vida religiosa apostólica – e portanto também a dominicana – está muito envelhecida e que não se conseguirá renovar tal como fez no passado. Certamente. Mas existe uma grande aventura a viver na velhice, que pode dar graças de ser tão fecunda para a vida da Igreja e de tantas comunidades humanas: poderemos juntos, apreender a deixarmo-nos levar pela ligeireza da açcão de graças, ao invés de nos desalentarmos pelo peso do futuro perdido? Acima de tudo, estamos todos convencidos de que a santa pregação tem necessidade, uma necessidade absoluta, da contribuição de mulheres dominicanas que consagrem totalmente a sua vida: é portanto reunidos, e a partir do que já está muito vivo, que devemos preparar os possíveis marcos desta pregação. Esta necessidade, esta urgência, de chamar às mulheres a unir-se à missão da Ordem nas suas diferentes formas possíveis, é algo que compete a todos os membros da família dominicana, tanto homens como mulheres.

 Como no tempo da pregação de Jesus, como nos tempos apostólicos, como também no tempo da fundação da Ordem, num tempo em que a Igreja assinala a urgência da evangelização, a família de S. Domingos, “família para a evangelização” tem, hoje mais que nunca, o dever de deixar-se constituir pela fraternidade que “prega a Palavra”. Vai dizer aos meus irmãos…

Um bom e feliz ano para todas e todos!

Roma, 13 de Janeiro de 2012

fr. Bruno Cadoré O. P.

Mestre da Ordem

(tradução da versão castelhana por Irª Carmen B. Alvarez, op)

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