Gabriel Silva

Dominicanas do Rosário Perpétuo: Vida de oração aberta ao mundo

In Espiritualidade, História, Jubilaeum 800, Monjas on 08/06/2016 at 15:25

É um dos ramos femininos da grande Ordem de São Domingos. Surge em 1880, com a especial missão de se dedicar, no silêncio da clausura, à devoção e oração ininterrupta do Rosário. É esse o seu contributo, como apoio orante, ao apostolado dos Pregadores.

Vida de oração aberta ao mundo

Numa tarde de verão de 1206, no dia de Santa Maria Madalena, caminhava São Domingos por uma estrada do Sul de França, quando parou a contemplar a paisagem. Elevando a Deus a sua oração, implora-lhe uma solução para o projeto que acalentava: dar um abrigo seguro às almas que se iam convertendo da heresia à verdadeira fé. Um globo luminoso faz desviar o seu olhar até uma capela de Prouilhe, dedicada à Santíssima Virgem. O fenómeno repetiu-se nos dois dias seguintes e ele viu aí a resposta de Deus para a criação de uma Ordem dedicada a essa causa.

Não hesitou sobre o local do futuro mosteiro que a intervenção divina lhe mostrara: construiu uma modesta habitação e, em 22 de novembro de 1206, instalaram-se as primeiras donzelas no Mosteiro de Nossa Senhora de Prouilhe, às quais impôs clausura.

Deste modo, começando pelo elemento feminino, São Domingos assegurou um apostolado de oração e sacrifício, como esteio seguro da santa pregação. A Rainha do Céu inspirou-lhe uma outra cruzada, de pregar aos seus ouvintes os mistérios da salvação, levando-os a rezar o Pai-Nosso e a Avé-Maria; daqui desabrochou a devoção do Santo Rosário.

Para combater os erros da heresia albigense que se propagava, São Domingos entregava-se, dia e noite, à pregação, oração e penitência. Escolhendo, depois, Tolosa para centro da sua ação, reuniu 16 discípulos e formou com eles a primeira comunidade de Pregadores. Assim nasceu a Ordem de São Domingos, aprovada pela Santa Sé em 1216, a comemorar os oito séculos no próximo ano.

Um ramo que surge e se expande

O padre Damião Maria Saintourens, dominicano pregador, formou uma pequena família de contemplativas desta grande Ordem, consagrando-as dia e noite ao Santíssimo Rosário. Desta forma surgiam, em 1880, as Monjas Dominicanas do Rosário Perpétuo, em Calais (França), um ramo que rapidamente se expandiu por todo o mundo.

Em 1951, o padre Pio Maria Gaudrault, vigário geral dos Dominicanos Portugueses, que tinha conhecido e acompanhado o fundador, fez em Roma o convite a Madre Maria Luís Bertand para a fundação de um Mosteiro do Rosário Perpétuo em Fátima, onde Nossa Senhora tinha dito “Sou a Senhora do Rosário”. Dado o acolhimento do então bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, a Madre e a irmã Maria da Anunciação vieram para Portugal e lançaram mãos à obra do Mosteiro Pio XII, inaugurado em 1954 pelo cardeal Federico Tedeschini.

Vida de oração

Ali, a poucos metros de distância da Capelinha das Aparições, a Comunidade de clausura vive inteiramente dedicada à devoção do Rosário, que é fiel resposta à Mensagem de Fátima. A sua principal ocupação é rezá-lo dia e noite, sucedendo-se as religiosas, uma após outra, hora após hora. Cada uma, na sua hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento, faz vigília com Jesus e Maria, suplicando pela Santa Igreja e pelas almas, sempre em obediência aos desígnios de Nossa Senhora: “Rezem, rezem muito, façam sacrifícios pelos pecadores porque muitas almas se perdem por não haver quem peça por elas”.

Seguindo com fidelidade e amor à sua Regra, aos votos solenes e à tradicional observância monástica, a vida das Religiosas Dominicanas torna-se uma oração contínua, um prolongado ato de sacrifício. Às primeiras horas da manhã, o sino chama as monjas para a recitação das horas canónicas de Prima e Tércia, seguindo-se a meditação e a Missa, com a Comunhão, onde vão buscar o alento espiritual e a generosidade para cumprir o dever quotidiano.

Cada uma tem o seu quinhão no trabalho da casa, quer na sacristia, na lavandaria, na cozinha ou no jardim, quer conservando o mosteiro irrepreensivelmente limpo, quer dedicando-se aos bordados, confecionando paramentos litúrgicos, terços, pintando ou desenhando e dando-se, ainda, a todo o género de atividades relativas à propagação da Associação do Rosário Perpétuo. Assim, entre as horas de leitura espiritual, oração e recreio, há uma grande liberdade para o desenvolvimento de talentos e aptidões. E tudo se realiza num clima de silêncio e de recolhimento. Estas atividades, assumidas como manifestações do seu zelo pela glória de Deus, representam, consequentemente, a preparação das suas almas e dos seus corações para uma mais perfeita participação no ato redentor de Cristo, na Missa.

Carisma

O Rosário é a “herança preciosa” da Ordem Dominicana e as Monjas do Rosário Perpétuo consideram-no o seu tesouro. Toda a sua devoção se concentra nesta prece admirável, que é a porta de acesso à contemplação mais pura dos Mistérios de Salvação. Pertencendo a uma Ordem que cultiva a pobreza e o ministério da Palavra, elas escolheram o silêncio de contemplação, na oração e no sacrifício, para alcançar de Deus luz e fecundidade para o apostolado dos Filhos de São Domingos.

Enquanto os Dominicanos falam de Deus aos homens, elas falam dos homens a Deus. Não atravessam os mares em missão, não exercem o ensino, nem entram nos hospitais para curar e consolar; mas, dia a dia, hora a hora, a sua prece sobe ao trono da graça e da misericórdia por todas estas necessidades. Elas são, assim, verdadeiramente missionárias e apóstolas, abertas ao mundo.

monjas fatima

Testemunho vocacional

“Sim, serei pregadora do Evangelho!”

Para falar da vocação, tenho que tomar a palavra do salmo: “Senhor, ensinar-me-eis o caminho da vida, na vossa presença a plenitude de alegria, à vossa direita delícias eternas”.

Sou natural da Irlanda, a terra evangelizada pelo Santo Patrício a partir do ano 432, e que ficou firme na fé através dos séculos até hoje. Fui a quinta filha numa família de sete, da qual surgiram três vocações, com um tio sacerdote e uma tia religiosa, autêntica igreja domestica.

Cresci nesse ambiente de fé praticante, na igreja paroquial, na escola e na vida diária, terminando o dia com a oração do Rosário. Lembro-me de um franciscano zeloso com hábito e sandálias que veio pregar a Missão, de tal forma que resolvi aos 8 anos: “sim, serei pregadora do Evangelho!” Havia uma representação da história das Aparições nos colégios e conheci a riqueza de Fátima.

Senti o chamamento do Senhor constantemente e aos 18 anos tive uma experiência no Instituto de Ensino da Virgem Maria, que observa a Regra Jesuíta de Santo Inácio de Loyola, onde a minha irmã fez profissão. Passei algum tempo em estudos e trabalho e, no espírito de peregrina, fiz viagens a santuários e lugares santos, de longe e perto.

O Espírito guiou-me até ao Mosteiro do Rosário Perpétuo, em Roma. Entrei lá em 1952, no tempo do Papa Pio XII. O vigário dos Frades Dominicanos em Portugal, que trabalhava na restauração da província, estando em Roma, convidou a Madre Prioresa a fundar um Mosteiro em Fátima, onde Nossa Senhora tinha dito: “Eu sou a Senhora do Rosário”. Assim, em junho de 1954, uma comunidade de 10 irmãs chegaram a Fátima e eu, ainda noviça, fui a décima pedra fundadora. E aqui estou bem viva, após mais de 60 anos! Cumpriu-se o sonho de criança!

E o que fazemos na clausura? A solene celebração da Liturgia das Horas é central no nosso dia, além do Rosário. Dedicamo-nos, ainda, à difusão da Mensagem de Fátima, em comunicação com as terras de língua inglesa, a assistir aos peregrinos que batem à porta, a publicar o boletim “Amigos de Fátima”, a fazer traduções – eu tinha a honra de traduzir para inglês as Memórias da Irmã Lúcia e outras obras -, a suplicar as graças divinas numa vida contemplativa rosariana.

Uma palavra final: Que maravilha de graça estar nesta terra bendita, no limiar do Centenário das Aparições de Nossa Senhora e do Anjo da Paz!

Ir. Maria Diana Roche

 

Fonte: jornal Presente, 26 Novembro de 2015

 

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